A diferença entre solidão e solitude toca num dos temas mais delicados da vida humana: estar só.
Podemos resumir assim:
Solidão: estar só contra a própria vontade, sentindo falta de conexão.
Solitude: estar só por escolha, sentindo presença consigo mesmo.
O dilema:
Estar só é um vazio que precisa ser preenchido ou um espaço que pode ser habitado?
Quando você está sozinho(a), o que aparece mais forte: um incômodo (“preciso de alguém”) ou um alívio (“finalmente comigo mesmo(a)”)?
Você já sentiu solidão mesmo cercado(a) de pessoas? O que faltava ali?
O que te assusta mais: ficar sozinho(a) com seus pensamentos ou nunca ter silêncio para se ouvir?
As respostas dizem muito sobre se a sua “solidão” tem mais cara de solidão dolorosa ou de uma solitude que ainda não foi cultivada.
Na solidão, a experiência é:
“Ninguém me vê.”
“Ninguém me entende.”
“Se eu desaparecesse, faria falta?”
É uma sensação de desconexão – não só com os outros, mas muitas vezes consigo mesmo(a).
Você pode estar:
no meio de uma festa
em um relacionamento
numa família cheia de gente
… e, ainda assim, sentir solidão.
Existem aqui algumas camadas:
Solidão como abandono: quando faltou cuidado, presença, afeto.
Solidão como desencontro: quando você até tem pessoas, mas não se sente realmente encontrado por elas.
Filosoficamente, a solidão levanta uma pergunta incômoda:
“Se ninguém me vê, eu existo por inteiro?”
Solitude é outra coisa: é a capacidade de estar só sem se sentir vazio.
Na solitude:
você não foge de si,
não precisa se distrair o tempo todo,
não sente que a própria companhia é um castigo.
Talvez você já tenha vivido solitude sem chamar assim:
aquele momento em que lê, escreve, desenha ou caminha sozinho(a) e sente paz;
quando desliga o barulho do mundo e sente: “aqui eu posso respirar”;
quando fica sem mensagem, sem rede social, e isso não dói, só descansa.
A pergunta da solitude é:
“Posso ser casa para mim mesmo(a), e não apenas hóspede?”
Para pensadores como Sartre, cada um de nós é, no fundo, irredutivelmente só. Ninguém pode viver a sua vida por você, sentir por você, decidir por você.
Essa “solidão ontológica” é assustadora, mas também é a base da liberdade.
A solidão que machuca vem quando você sente essa separação e não sabe o que fazer com ela.
A solitude aparece quando você aceita essa condição e começa a escolher quem ser, em vez de só temer estar só.
Pergunta existencial para você:
Se você não precisasse provar nada a ninguém, como você usaria seus momentos a sós?
Nietzsche fala muito de tornar-se aquilo que se é. Para isso, ele valoriza a solidão como um laboratório interior.
Não é isolamento arrogante, mas um afastamento necessário para se ouvir.
A solidão vazia é quando estar consigo mesmo é intolerável.
A solitude criativa é quando você consegue transformar estar só em criação, reflexão, fortalecimento.
Pergunta nietzschiana:
O que na sua própria companhia você tenta evitar, e o que poderia nascer se você ficasse com isso um pouco mais?
Foucault fala do “cuidado de si” como uma prática. Nesse sentido:
Solidão é quando você está só sem cuidado: consigo e dos outros.
Solitude é quando você transforma estar só em um espaço de cuidado de si:
repouso
reflexão
autoconhecimento
limites saudáveis com o mundo
Pergunta de cuidado:
O que seria, para você, um pequeno ritual de solitude – algo que você faz sozinho(a) e que te faz voltar para si, não fugir de si?
Podemos condensar assim:
Solidão é sentir falta de um outro. Solitude é deixar de faltar a si mesmo.
Ou:
Na solidão, o silêncio grita. Na solitude, o silêncio acolhe.
E ainda:
Solidão é um quarto escuro em que você se sente trancado. Solitude é o mesmo quarto, quando você descobre que a chave sempre esteve na sua mão.
Alguns sinais de que você está mais na solidão:
precisa de barulho, mensagem, companhia o tempo todo;
sente ansiedade quando está sem distração;
estar só traz pensamentos de inutilidade, abandono, desamparo.
Alguns sinais de que está cultivando solitude:
consegue ficar um tempo sem mexer no celular;
sente que estar só às vezes é descanso;
usa o tempo sozinho para algo que te nutre: ler, cuidar do corpo, pensar, criar, respirar.
Importantíssimo: ninguém vive só de solitude. Precisamos de laços, afeto, reconhecimento.
A sabedoria está no equilíbrio:
nem fugir da própria companhia o tempo todo (prisão na solidão),
nem usar a solitude como desculpa para se fechar do mundo (isolamento defensivo).