No limiar da carne, onde pulsa o ardor,
Ecoa um grito surdo, sem cor, sem calor.
O que outrora era chama, agora é brasa fria,
E o corpo, antes templo, cambaleia em agonia.
O desejo, esse deus de ouro e tentação,
Torna-se sombra, miragem em desertificação.
Cada impulso agora custa mais do que se tem,
Pois o preço do ego cobra juros de desdém.
As mãos estendem-se ao alto, vazias de esperança,
Buscando no ar vestígios da antiga aliança.
Mas a beleza, essa deusa cruel e fugidia,
Habita píncaros distantes, envolta em melancolia.
Viver tornou-se hábito, não escolha ou fulgor,
Um ciclo de passos cegos, sem fé, sem sabor.
E as motivações, essas aves de plumagem fina,
Migraram para um céu que o olhar já não adivinha.
A quimera, cansada de não se realizar,
Retira-se aos poucos, deixa de respirar.
Pois o sonho que não toca a pele ou o chão,
Se desmancha em névoa, vira solidão.
O coração pulsa por instinto, não por paixão,
E o corpo se move como vulto em procissão.
Sabe-se vivo, mas por que, não se sabe mais,
Há uma vida que segue, mas sem rituais.
Algumas vezes o inefável exige sacrifício e queda,
Mas quem já caiu mil vezes teme nova entrega.
O abismo sorri com dentes de promessas velhas,
E o desejo morre aos poucos, entre ruínas e centelhas.
E assim vai o homem, sombra de si,
Tateando a carne sem ter onde ir.
Viver por viver — sentença sem réu,
Enquanto o desejo evapora, e o mundo se torna véu.