JFonsi
"Não temo ao que me desperta"
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

 

No limiar da carne, onde pulsa o ardor,

Ecoa um grito surdo, sem cor, sem calor.

O que outrora era chama, agora é brasa fria,

E o corpo, antes templo, cambaleia em agonia.

 

O desejo, esse deus de ouro e tentação,

Torna-se sombra, miragem em desertificação.

Cada impulso agora custa mais do que se tem,

Pois o preço do ego cobra juros de desdém.

 

As mãos estendem-se ao alto, vazias de esperança,

Buscando no ar vestígios da antiga aliança.

Mas a beleza, essa deusa cruel e fugidia,

Habita píncaros distantes, envolta em melancolia.

 

Viver tornou-se hábito, não escolha ou fulgor,

Um ciclo de passos cegos, sem fé, sem sabor.

E as motivações, essas aves de plumagem fina,

Migraram para um céu que o olhar já não adivinha.

 

A quimera, cansada de não se realizar,

Retira-se aos poucos, deixa de respirar.

Pois o sonho que não toca a pele ou o chão,

Se desmancha em névoa, vira solidão.

 

O coração pulsa por instinto, não por paixão,

E o corpo se move como vulto em procissão.

Sabe-se vivo, mas por que, não se sabe mais,

Há uma vida que segue, mas sem rituais.

 

Algumas vezes o inefável exige sacrifício e queda,

Mas quem já caiu mil vezes teme nova entrega.

O abismo sorri com dentes de promessas velhas,

E o desejo morre aos poucos, entre ruínas e centelhas.

 

E assim vai o homem, sombra de si,

Tateando a carne sem ter onde ir.

Viver por viver — sentença sem réu,

Enquanto o desejo evapora, e o mundo se torna véu.

 

 

JFonsi
Enviado por JFonsi em 26/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links