No livro mudo do tempo,
ninguém escreve em vão.
A vida, com dedos invisíveis,
cobra juros sobre cada graça.
Se te oferecem o céu em palavras,
pode haver silêncio nas atitudes.
Se amas com sol e furacão,
talvez te respondam com nuvens e ruídos.
Cada gesto é uma moeda rara
que circula em mãos humanas —
mas o câmbio é instável,
pois a alma é feita de névoas e dramas.
A alegria vem em parcelas pequenas,
descontadas do imposto da espera.
A dor, quando vem, algumas vezes não avisa,
mas sempre ensina — à sua maneira.
Não há afeto sem espinhos,
nem promessa sem vestígios.
Até o amor, esse animal selvagem,
Muitas vezes, só pousa onde encontra equilíbrio.
Somos equações sem solução exata,
mapas que trocam norte por desejo.
E mesmo na entrega mais sincera,
há sempre um preço — mesmo que seja o beijo.
Mas talvez, no fim de tudo,
compensar seja o verbo mais humano.
Pois mesmo na perda, algo se ganha:
um olhar novo, ou um outro engano.