Há mundos que nascem dentro da cabeça
e parecem mais reais que a própria realidade.
Neles, o impossível respira,
o tempo se curva
e o real se desfaz em vertigem.
Mas o chão continua lá.
Com suas rachaduras,
seus deuses distraídos,
suas guerras minúsculas
e o peso absurdo de simplesmente existir.
Às vezes, a mente abre uma janela
e o corpo confunde a paisagem com a saída.
Então, o sonho cresce,
devora as paredes,
inventa um céu particular
e chama de liberdade aquilo que talvez seja esconderijo.
Mas quem pode condenar o voo
sem conhecer o peso das asas?
Há abismos que não se atravessam com coragem,
e realidades que não se suportam sem poesia.
O perigo começa quando a janela vira mundo,
quando o refúgio exige exílio,
quando já não se sabe
se a imaginação salva da queda
ou apenas a torna mais bonita.
No fim, não há resposta,
apenas uma consciência suspensa
entre o desejo de desaparecer
e a necessidade de permanecer.
Porque até os sonhos mais luminosos
podem projetar sombras.
E nem toda fuga leva para longe:
algumas apenas constroem, dentro de nós,
um abismo com vista para o céu.